Thursday, November 20, 2008

Mulher Adormecida


“Moro no ventre da noite:
sou a jamais nascida.
E a cada instante aguardo a vida.


As estrelas, mais o negrume
são minhas faixas tutelares,
e as areias e o sal dos mares.


Ser tão completa e estar tão longe!
Sem nome e sem família cresço,
e sem rosto me reconheço.


Profunda é a noite onde moro.
Dá no que tanto se procura.
Mas intransitável, e escura.


Estarei um tempo divino
como árvore em quieta semente,
dobrada na noite, e dormente.


Até que de algum lado venha
a anunciação do meu segredo
desentranhar-me deste enredo,


arrancar-me à vagueza imensa,
consolar-me deste abandono,
mudar-me a posição do sono.


Ah, causador dos meus olhos,
que paisagem cria ou pensa
para mim, a noite densa?”

Cecília Meireles

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Thursday, August 21, 2008

Retrato

Photo by Brendan McDonald

"Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida a minha face?"

Cecília Meireles

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Saturday, March 31, 2007

Retrato



Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?

Cecília Meireles

photo do escritor Francisco Ayala

Interpretaciones (fragmento)

" El arte, como proceso espiritual, como actuación, consiste en desprender de la realidad una apariencia orientada por la brújula del sentido estético, no de otro modo que la máquina del fotógrafo desprende una apariencia exactísima, y, sin embargo, independiente, de los objetos colocados en su campo. El toque del arte consiste en herir a la Naturaleza en su talón de Aquiles, en ese punto vulnerable, sensible, cuyo contacto -así también en la mujer; así en la caja de caudales- basta a lograr la apertura de su entraña estética.
(...)
Nos ha tocado a nosotros sondear el fondo de lo humano y contemplar los abismos de lo inhumano, desprendernos así de engaños, de falacias ideológicas, purgar el corazón, limpiar los ojos, y mirar al mundo, con una mirada que, si no expulsa y suprime todos los habituales prestigios del mal, los pone al descubierto y, de ese modo sutil, con sólo su simple verdad, los aniquila. "


El Poder de la Palabra
www.epdlp.com
Barcelona - Nueva York

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Tuesday, March 13, 2007

Timidez


Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...

— mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes...

— palavra que não direi.

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,

— que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando...

— e um dia me acabarei.

Cecília Meireles

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Tuesday, February 20, 2007

Medo


painting by: Edvard Munch

Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.

Cecília Meireles

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