Sunday, July 29, 2007

Origem dos sonhos Esquecidos


photo by Maria José Amorim


Tudo vai bem, amor! Aqui estamos longe!
Aqui malogra-se a abordagem dos terrores,
ninguém descarna o sonho ou a esperança,
não há fantasmas de espingarda ao ombro,
ninguém agoniza chicoteado pelas sombras...
Aqui não há ditadores nem guilhotinam os oráculos,
ninguém encobre estrelas com areia,
não cortam com navalhas os seios das mulheres,
nem se incendeiam ghetos com corpos de crianças:
é tudo útil, simples, como um campo de trigo
- a Esfinge é um animal de pedra muito gasta.
Os poetas podem passear nas ruas; a paz
não é uma aranha sobre a terra árida.
O sono não se povoa de estátuas de ameaça,
o amor não de faz de coração crispado:
o leito do amor é a simples terra nua.

Egito Gonçalves
Poema extraído da antologia A ARGAMASSA DOS POEMAS

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Tuesday, May 29, 2007

O Beijo do Poema


Beijo não é palavra de poema.
É o raiar da madrugada,
o anúncio de um dia longo,
o final da tensão que ameaçava partir a corda:
podemos escolher imagens,
comparações, fazer literatura.
Será sempre outra coisa, meu amor,
o beijo do poema.
É como o branco que dizem ser a fusão de todas as cores.
Não se retira um beijo do poema,
este é apenas a fotografia de alguns pormenores.
Um beijo é o corpo que antes não existia e ali nasce,
uma nova estrutura óssea que suporta um pulsar único,
um aposento onde o esplendor apaga todas as lágrimas
que conseguiram viver até chegar ali.

Egito Gonçalves
(de O Mapa do Tesouro, editora Campo das Letras, 1998 - O Aprendiz de Feiticeiro)

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